Muitas pessoas passam suas vidas universitárias inteiras tentando criar coragem de entrar em uma bateria. Algumas descobrem tarde, outras se formam sem conhecer a sensação. Frases como “puta merda, como eu me arrependo de não ter entrado antes” são as mais ouvidas.

Por outro lado, tem calouro que já chega chegando, e com 3 ou 4 meses de faculdade, já está disputando torneios com sua bateria. Mas a questão é: O que eu faço quando chegar na escolinha? Qual instrumento escolher?

 Estamos aqui hoje para sanar algumas dúvidas e quebrar alguns paradigmas sobre sua inicialização dentro de uma BU.

Geralmente, a bateria se apresenta para os calouros e cada um vai em busca dos instrumentos que achou mais “legal”, ou aquele que vai proporcionar mais evidencia, ou um que não machuque tanto as pernas, ou o que faz menos coisas. Cada cabeça pensa de um jeito, mas será que é assim que se deve pensar?

O Mestre Tavinho, ex-mestre da Bateria Carniceiros e eleito o melhor mestre do Interbatuc 2017, falou com a gente: ”Um ritmista que tá começando não tem que se preocupar muito com a função do instrumento pra fazer a escolha dele… lógico que é muito importante conhecer o instrumento que se vai tocar, mas o mais importante é escolher o instrumento que faz o som que te agrada mais, porque vai ser aquele instrumento que você vai passar horas e horas e horas ensaiando, é com aquele instrumento que você vai passar amor e energia dentro da bateria”.

Se você chegar chegando, quer ser O CARA e tocar o instrumento mais importante, tu tá é lascado, porque terá que tocar todos. O samba só fica completo quando todos os instrumentos estão sendo executados em harmonia. Cada instrumento tem sua função e iremos falar um pouquinho de cada um.

1 – Surdo de Marcação


É a base de tudo, o coração pulsante da bateria. Marca o tempo, seja em qual compasso a bateria estiver. Orienta os demais naipes em qualquer ritmo a ser executado. É um instrumento que mesmo quem não toca, tem que saber ouvi-lo.

Na minha bateria, todos os calouros passam pelo surdo, mesmo que esse não venha a ser o seu instrumento após a escolinha. Sentiu a responsa?

2 – Surdo de Corte

 

É o “irmão mais novo” do Surdo de Marcação. E como todo irmão mais novo gosta de aprontar, esse instrumento que está presente no samba desde a década de 1990, trabalha entre a precisão da marcação, “cortando” entre os tempos (contratempo), aproveitando-se dos espaços e, apesar de fazer parte dos instrumentos que compõe a base do samba, é um instrumento de criação, floreios e ousadia.

Exige-se muita habilidade de quem o toca, noção de ritmo, dedicação para estudar tudo que o instrumento pode oferecer. Quando se toca em dois, a dupla deve estar totalmente focada, dedicada e entrosada, pois tudo deve sair sincronizado, como se existisse somente um instrumento sendo tocado.

3 – Caixa

 

A caixa é o instrumento em maior número da bateria. Mas por quê? Porque trabalha com o surdo (na verdade todos os naipes trabalham juntos para formar o ritmo). Mas o que quero dizer é que trabalham juntos na sustentação e manutenção do ritmo, e como o surdo é um instrumento que emite som grave, e caixa um som agudo, a caixa precisa constar em maior número para ambos serem ouvidos com clareza e harmonia.

Existem inúmeras batidas (ou levadas) de caixa, e cada bateria escolhe a sua. Isso acaba se tornando uma espécie de identidade da bateria. Quando se está ouvindo o som de uma bateria, mas não a está vendo, a batida de caixa ajuda a identificar a bateria.

Um grande mestre brasileiro uma vez disse: “se esse instrumento estiver bem, a bateria estará bem”.

4 – Repinique

 

Completando a galera do fundão, olha lá o menino! É meu atual instrumento dentro da bateria, o qual me chamou a responsa assim que larguei o apito, e onde me sinto EU, porque assim como a terceira (que também divide meu coração entre os instrumentos), oferece liberdade para bagunçar as bases e dar um toque de swingue para o samba.

Não é um instrumento fácil de tocar, e depois que aprende, exige tanta dedicação quanto de quem toca Terceira. Ele “chama” o samba e aproveita os intervalos.

5 – Chocalho

 

Quando o samba está rolando, ele dá um brilho todo especial para o ritmo, e eu digo que trabalha na mesma pegada das caixas, ajudando-as na sustentação. Cada vez mais tem sido um naipe muito bem explorado, principalmente nas bossas bem elaboradas.

Sendo um instrumento de brilho, passa alguns momentos sem ser executado durante um ritmo, aparecem em momentos específicos nas bossas e quando libera o peso do samba. Sendo um instrumento mais agudo e de sonoridade mais baixa, geralmente se toca em mais de um, e o time precisa estar muuuuito bem entrosado para não acontecer o que chamamos de embolada, que é quando dois ou mais instrumentos não estão sincronizados, gerando o que chamamos aqui na Tourada de “som da cascavel”.

6 – Tamborim

 

Olha só, nossos principais solistas aí. O Tamborim, como já citei, são os grandes responsáveis por executarem os solos dentro da bateria, seja nas bossas como no próprio samba. É de difícil execução, afinal, executam quatro notas por tempo e com uma mão só, ao contrário das caixas.

O carreteiro, que é a levada do samba executada por ele, pode ser executado no 3×1, 2×1 e 1×1, sendo o 3×1 o mais executado durante o samba, e os demais, utilizados mais em bossas.

Quem escolhe esse instrumento é o que mais precisa ter dedicação, levar pra casa e infernizar a vida da mãe, treinar tanto individualmente como em grupo, pois são os que mais geram erros de execução em torneios.

7 – Agogô

 

Eu costumo dizer que “se a bateria fosse uma banda, o agogô seria o cantor”. Não é instrumento obrigatório em muitos torneios, mas pode trazer muita versatilidade para a bateria. Só quem toca sabe a imensidão de possibilidades que podem se fazer com aquelas quatro notas, sejam imitando os hits do momento, os antigos ou coisas loucas que surgem durante o banho ou na hora de dormir.

Eu acredito que NOÇÃO RÍTMICA e BOA MEMÓRIA, são características para esse instrumento, mais do que a própria HABILIDADE. Quem toca piano ou teclado, são grandes candidatos para esse naipe.

8 – Mestre

 

E já que falamos sobre todos os naipes, vamos falar sobre aquele que conduz a todos.

Ninguém entra na bateria como Mestre, óbvio. Mas é importante falar sobre para quem pretende ser, ou mesmo para quem não imagina, afinal, o próximo Mestre pode ser VOCÊ, calouro, que está entrando agora e não sabe nem o que é uma bateria universitária.

O Mestre é geralmente aquela pessoa com mais habilidade dentro da bateria, que sabe tocar todos os instrumentos ou pelo menos a maioria, afinal, fica mais difícil criar algo para um instrumento que você não sabe tocar, e dentro de uma construção instrumental, o instrumento que você não tem afinidade pode ficar mais “esquecido”.

Sobre dedicação, não precisa nem falar, né jovem? É uma missão que quem assumir, precisa levar como um trabalho, pois o resultado final, os sorrisos ou lágrimas, irão depender de você.

Saber ser pulso firme para concretizar seu trabalho e ao mesmo tempo fazer as pessoas que você conduz gostarem de você, é foda, foi o que achei mais difícil estando como Mestre. Mas depois de tudo, quando as coisas acontecem como planejado e você vê todas aquelas pessoas felizes por um trabalho que você liderou, é a melhor sensação do mundo.

Agora, o que eu acho mais importante sobre esse lance do calouro na bateria.

Tem gente que possui talentos que nem sabe. Vai chegar e tocar Tamborim de primeira, Repinique de primeira, Terceira de primeira e você vai ficar com uma cara de tongo, olhando e imaginando mil planos para aquele ser lindo e maravilhoso que apareceu na sua vida. Outros irão demorar pra pegar. Mas o mais complicado é o cara que NÃO TEM TALENTO PARA O INSTRUMENTO QUE ESCOLHEU.

Às vezes, a pessoa vai conseguir tocar seis instrumentos diferentes, mas vai e escolhe justo o que ele não consegue. Esse momento é crucial para a permanência do calouro. Ele tem duas opções que vocês, líderes, terão que conduzir. Ou ele aceita que não vai rolar aquilo que ele escolheu e parte para outra, ou irá acontecer algo muito comum: a pessoa precisa passar por um instrumento diferente para adquirir habilidade e voltar para aquele de sua escolha.

Por exemplo, é muito comum pessoas escolherem Tamborim ou Repinique já de cara, e como são os mais difíceis, se frustram já na chegada. Para isso, a Caixa é um instrumento que permite desenvolver a habilidade nas duas mãos, e num futuro próximo a pessoa poderá tocar aquele instrumento que ela escolheu inicialmente.

Nunca deixe o calouro achar que é um bosta só porque não conseguiu tocar um instrumento. Existem diversas opções, e o calouro que antes tinha escolhido tocar Tamborim, pode se tornar seu próximo Chocalho de Ouro.

O calouro é o maior bem da bateria, pois ele significa POSTERIDADE, e nem adianta mentir, um dos seus primeiros pensamentos do ano é: “ai ai, será que vai ter bastante calouro na bateria esse ano?”.

O Guilherme Colombo tem uma posição muito concisa sobre esse assunto. Ele é Ex-Mestre da Tourada, conduziu sua bateria ao título do Engenharíadas Paranaense 2016 e foi eleito o melhor Mestre da competição. “A função do calouro dentro de uma bateria é maior do que você mesmo (calouro) imagina. O fato é que todos os comandantes de hoje são os formados de amanhã e a bateria vai ter que ficar na mão de alguém né, já pensou nisso? Digo por mim que a bateria trouxe mais do que simplesmente diversão. Ela serviu logo no início como um instrumento de autoconhecimento. Com o passar do tempo, em um momento que eu já não mais era calouro, o crescimento da bateria foi acontecendo e eu acabei me vendo como um responsável, e isso acabou me trazendo responsabilidades como gestão de pessoas e financeira, marketing, planejamento e tudo mais”.

A parada é que você não pode se limitar dentro da bateria. Vá buscar conhecimento. Nas horas vagas, aprenda outro instrumento, treine com seus companheiros. Chegue para o Mestre e mostre aquele negócio daora que você viu. Esteja sempre ligado no mundo das BU’s, nos torneios e nas próprias escolas de samba.

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