Pra quem gosta de acompanhar esportes pelos principais canais esportivos disponíveis hoje na TV, acaba sempre pegando alguns jogos do basquete ou do futebol americano universitário dos EUA. Por que um jogo de basquete entre duas universidades está sendo transmitido na TV, não apenas nos EUA, mas em diversos outros países? Até jogo de vídeo-game esses campeonatos universitários já viraram. A verdade é que o modelo de esporte universitário americano é hoje um dos mercados mais rentáveis nos EUA. Pra começar a entender como funcionam as “Atléticas” norte-americanas, vamos falar primeiro sobre a NCAA (National Collegiate Athletic Association).

A NCAA é a empresa responsável por organizar os campeonatos de todas as modalidades, de todas as conferências e de todas as divisões, assim como administrar todo o dinheiro que circula nesse meio. Hoje, são cerca de 1200 universidade vinculadas, distribuídas em cerca de 98 conferências. Só para ter uma noção da grandiosidade, nos últimos  anos, a média do faturamento da NCAA foi de cerca de 1 bilhão de dólares por ano (cerca de 3 bilhões de reais). Pra servir de comparação, a CBF teve um arrecadamento RECORDE em 2016 de 647 milhões de reais, considerando todas as divisões do futebol assim como a Seleção Brasileira (dinheiros de patrocínios, cotas de TV, etc.). Quase 1/5 do valor. Além disso, a média de público também assusta. Usando o futebol americano universitário como exemplo, a média gira em torno de 40 a 45 mil pessoas por partida, sendo que nas principais conferências, essa média chega a 70 mil pessoas por jogo. Já imaginou tudo isso de gente pra assistir um jogo entre universidades aqui no Brasil? (LOUCURAAAAA).

A questão é que toda essa grandiosidade foi construída ao longo dos anos. O governo, assim como as instituições de ensino (elementary school, highschool e colleges) perceberam o quanto o esporte poderia trazer de retorno. Não apenas em termos financeiros, mas sempre foi uma forma de estimular desde pequeno os estudantes a tirarem boas notas e se dedicarem a algum esporte. Como os custos para estudar em uma universidade (até mesmo pública) nos EUA são relativamente caros, é comum que a família apoie o filho à pratica esportiva desde os primórdios, o estimulando de forma que, no futuro, ele seja capaz de conquistar uma bolsa.

Se os EUA é uma das maiores potências olímpicas, isso não foi da noite pro dia. A NCAA não é responsável apenas pelo campeonato de basquete e futebol americano. São inúmeras as modalidades que são organizadas, cobertas e financiadas de forma a obter o melhor resultado e desenvolver os melhores atletas (até boliche tem). Os atletas que se destacam acabam se profissionalizando nos seus esportes posteriormente através do DRAFT, quando os times das equipes profissionais de cada esporte tem a chance de escolher os universitários que eles irão contratar. Mesmo assim, o número de atletas graduados é bastante considerável. A NCAA calcula que mais de 80% dos atletas se formam em algum curso superior dentro das suas universidades. E pensar que aqui no Brasil são poucos os atletas que tem a chance de conciliar o esporte com a formação superior de qualidade.

Todo esse resultado vem de políticas governamentais e também da própria NCAA junto às universidades. Na década de 70, o governo americano criou uma lei conhecida por  “Title IX” que previa a igualdade de gêneros nos esportes em instituições de ensino. Desta forma, as escolas e universidades passaram a destinar 50% da sua receita esportiva para modalidades femininas e 50% em modalidades masculinas. Como o basquete e o futebol americano são os esportes mais “caros”, é comum que as universidades possuam um maior número de equipes femininas de outras modalidades, como futebol e voleibol, para balancear essa igualdade. Essa lei, permitiu que os EUA desenvolvessem ao longo das décadas, equipes extremamente competitivas de ambos os sexos.

Da mesma forma, o dinheiro arrecadado pela NCAA acaba sendo revertido e investido de diversas formas nos estudantes e universidades. Bolsas de estudos, fundo para atletas, programas de ensino dentro da universidade, investimento em infraestrutura e logística dos campeonatos são apenas alguns exemplos. Se aqui no Brasil poucas universidade oferecem uma boa infraestrutura ao esporte, o dinheiro para a construção de estádios gigantescos, academias e centro de pesquisas nos EUA vem do próprio esporte. É um ciclo, onde o dinheiro investido, acaba retornando em maiores proporções.

Ai você se pergunta, cadê isso aqui no nosso Brasilzão?!?! A verdade é que no Brasil pouco se investiu em esporte. As aulas de educação física no ensino fundamental e médio são a forma que o governo encontrou de associar o esporte de alguma forma a educação. Fora isso, são raros os programas dentro das escolas que visam de alguma forma desenvolver um atleta de alto nível. Até porque, falta estrutura para tal. O maior problema é que às vezes surge um atleta potencial e quando ele conclui o ensino médio ele tem que se decidir: continuo com minha rotina de treinos ou faço uma faculdade? Ai meu amigo, se ele decide por fazer um ensino superior é quase que sacrificar todo o seu talento em determinado esporte. Isso pelo fato de que as universidades não possuem programas eficazes de treinos, competições, etc. Por todos esses motivos que ao longo dos anos, o movimento da atléticas que surgiu primeiramente com força nas universidades paulistas se estenderam aos demais estados.

Enquanto nos EUA a atlética é única, representando cada instituição e administrada pela própria, as atléticas no Brasil por muitas vezes representam algum curso especifico, ou aglomerados, sendo criadas e administradas exclusivamente por estudantes. Talvez esse seja um ponto positivo em comparação com o modelo norte-americano. A organização das atléticas e dos campeonatos partindo dos próprios acadêmicos promovem aos mesmos grande desenvolvimento pessoal e profissional. No ano que tive a oportunidade de estudar no exterior e me deparei com a grandiosidade da NCAA e do esporte universitário, comecei a me questionar quanto ao motivo pelo qual o mesmo modelo nunca foi adotado no Brasil. Em contrapartida, mostrei aos meus colegas atletas americanos, como eram organizadas as atléticas e os campeonatos aqui, mostrando pra eles videos de jogos e competições e relatando nossas dificuldades para conseguir apoio institucional. Eles ficaram muito surpresos e se “julgaram incapazes” de fazer o mesmo, caso a realidade nos EUA fosse semelhante.

É difícil enxergar um modelo desses hoje no país. As mudanças deveriam ocorrer um passo de cada vez. As atléticas no Brasil já estão mostrando para as entidades publicas (sejam as universidades, secretarias de esporte e prefeituras) o potencial que elas possuem. Falta mais apoio, seja de locais para treinos, profissionais para auxiliarem no desenvolvimento do atleta, logística para campeonatos externos, etc.

Tomando como um exemplo somente o futebol (o esporte mais querido e idolatrado), já imaginou campeonatos de alto nível e organização entre as instituições de ensino de todo o Brasil? Jogos onde a cidade inteira iria ao estadio para apoiar a atlética da universidade, onde as partidas fossem transmitidas pelos principais canais de TV, onde a verba seria revertida para o desenvolvimento das instituições, onde os torneios seriam vitrines para os clubes profissionais buscarem os jogadores jovens, que além do talento teriam também ensino superior? O mesmo valeria para qualquer outra modalidade! Já imaginou? QUE SONHO!

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