Cervejaria Cathedral mostra a força da sociedade criada em meio universitário

Sabe aquele bom gole com os amigos da facul? O empreendedorismo pode nascer aí!

Três amigos, Daniel Chaves, Guilherme Palu e Marcelo Baptistella, ex-universitários de Engenharia Química e Mecânica da Universidade Estadual de Maringá (UEM) apostaram que a amizade da universidade, de república, de anos de jogos universitários e trips, poderia se tornar uma sociedade de sucesso. Assim, fundaram a Cervejaria Cathedral, uma empresa enraizada no meio universitário.

Sócios da Cathedral comemorando premiação no Festival Brasileiro de Cervejas de Blumenau
Sócios da Cathedral recebem prêmio no Festival Brasileiro de Cervejas de Blumenau

Um dos sócios, Chaves, conversou com o Integraê sobre a Cathedral. Confira aí!

  1. Conta como a Cervejaria Cathedral surgiu. Foi de um projeto de TCC pra vida real?!

No último ano do curso de Engenharia Química na UEM, em vez de realizar um TCC baseado em uma dissertação sobre um assunto específico, todo acadêmico deve formar um grupo e realizar um projeto referente a implantação de uma indústria. O trabalho trata basicamente sobre a criação de um plano de negócios de uma fábrica que utiliza algum tipo de processo de transformação. É necessária a realização de um planejamento estratégico e financeiro e, obviamente, por se tratar de um curso de engenharia, a realização de todos os balanços de massa e energia da planta (principais atribuições de um engenheiro químico). Decidimos que nosso projeto (meu, do Guilherme e de outros dois amigos) seria sobre a implantação de uma microcervejaria na cidade de Maringá.

Durante o período de um ano que antecedeu a apresentação do projeto, compramos um kit de fabricação de cerveja pela internet e começamos a nos aventurar na fabricação de cervejas em panelas, as conhecidas “cervejas caseiras”. Ao mesmo tempo em que íamos realizando diversos testes de receitas no fundo da república, seguíamos com as frequentes reuniões que foram dando corpo e alma à nossa fábrica de cervejas no papel.

Para que o projeto se concretizasse era necessário obter o domínio tanto do processo quanto de toda cadeia de suprimentos, matéria-prima, embalagem, fornecedores de equipamentos, etc, pois tratava-se de um trabalho baseado em valores reais de mercado. Balanços financeiros e projeções de cenários deveriam possuir como base o cenário econômico do setor vigente da época.

Participamos de palestras, feiras e cursos técnicos de fabricação de cerveja. Conhecemos fornecedores e profissionais atuantes do mercado, além de realizar diversas visitas em microcervejarias. Levamos o projeto a sério.

Ao fim do trabalho, após a apresentação e consequentemente a graduação no curso, estávamos tão inteirados sobre o mercado de microcervejarias no Brasil que percebemos que possuíamos uma oportunidade em nossas mãos. Os seis últimos anos vividos em Maringá haviam nos mostrado que se tratava de uma excelente cidade, com uma ótima qualidade de vida e com o perfil econômico ideal para a instalação de uma fábrica exatamente nos moldes em que passamos o último ano estudando.

Convencemos o Marcelo, amigo e estudante do curso de Engenharia Mecânica, a embarcar nesta jornada conosco. Formamos uma sociedade, conseguimos nosso primeiro investimento e montamos uma tímida fabriqueta de cerveja nos arredores da cidade, no início de 2014.

“(…)nossa participação na Atlética de Engenharia. Foi nela onde nasceu nossa química para fazer as coisas acontecerem.”

  1. Qual é a história da sociedade de vocês? O que enxerga como elo entre você, o Palu e o Marcelo?
Chaves, Palu e Baptistella na 1ª edição do Engenharíadas PR
Chaves, Palu e Baptistella na 1ª edição do Engenharíadas PR

Nos conhecemos em 2008, ano que em começamos os estudos na UEM. Eu e o Guilherme nos tornamos amigos logo no primeiro dia de “aula”, mais especificamente no trote. Conhecemos o Marcelo no final do ano, por conta de nossa participação na Atlética de Engenharia. Foi nela onde nasceu nossa química para fazer as coisas acontecerem. Fizemos festas, fundamos o Engenharíadas Paranaense e, em meio a tantos projetos, Marcelo virou um frequentador assíduo da “República Democrática do Congo”, onde veio a morar posteriormente com a gente.

Tudo que a gente botava na cabeça para fazer, desde a decoração de uma festa, a organização de um evento ou de uma viagem, tudo que a gente tinha vontade de realizar nós fazíamos juntos e a amizade foi crescendo. E tudo que fazíamos juntos dava muito certo. Acho que não só por conta da nossa união, mas também porque sempre fomos muito críticos na qualidade de tudo que fazíamos. Sempre buscamos fazer algo diferente, fora do comum.

A semente de um empreendimento foi plantada em uma viagem de bicicleta de mais de 2.000 km que ia de Salvador a Fortaleza. Em meio a tantos perrengues, vimos que conseguíamos conviver e superar muita coisa juntos. Foi ali que percebemos que nos daríamos bem como sócios, só não sabíamos ainda exatamente em quê. Tudo que sabíamos é que não queríamos que cada um seguisse a carreira padrão de um estudante de Engenharia: arrumar um emprego em uma grande empresa ou indústria, mudar de cidade e perder o contato. Não queríamos trabalhar para realizar o sonho de outros.

  1. Você acha que a universidade convida os acadêmicos a se tornarem empreendedores?

Olha, não tenho muito conhecimento sobre como exatamente as coisas acontecem nos outros cursos da UEM, mas posso dizer que o tipo de trabalho de conclusão de curso aplicado pelo departamento de Engenharia Química fez toda a diferença no que se diz respeito ao nosso negócio. Nós não dissertamos, por exemplo, sobre o efeito de nanopartículas de carbeto de silício na cristalização de poliuretano. Sabe-se lá qual foi o proveito que o autor desse trabalho pode ter tirado de todo o tempo investido nessas pesquisas. No nosso caso, fizemos o plano de negócios de uma indústria. Fomos estimulados a olhar as coisas de cima. A analisar um negócio como um todo. Mas falo sobre o meu curso em específico.

De um modo geral, tenho a impressão de que os cursos de graduação em instituições públicas fomentam pouco, ou quase nada, o empreendedorismo. O que realmente ajuda são as atividades extracurriculares. Empresas júnior, atléticas, centros acadêmicos e associações em geral. Estes são os locais em que os acadêmicos vivenciam experiências que vão muito além de estudar para uma prova e adquirir conhecimento específico. Lidar com dezenas de pessoas e aprender a desenvolver projetos e resolver problemas em grupo é muito mais valioso quando falamos sobre empreender.

  1. Como surgiram as primeiras receitas? Quando perceberam que chegaram na fórmula que queriam?

Existe muito material disponível, tanto em livros quanto na internet, quando o assunto é receitas de cervejas. Saber

Cervejas IPA, Belgian Blond, Helles Bock e Stout

quais maltes e lúpulos usar, assim como os tempos de adição e rampas de temperatura, ajudam de certa forma, mas se 10 pessoas tentarem realizar a mesma receita, teremos 10 cervejas diferentes.

São muitas as variáveis que lidamos ao executar a fabricação de uma cerveja. A receita em si é só uma pequena parcela de todo o trajeto que o líquido vai percorrer, desde a quebra do amido dos grãos de cevada em açúcares menores, sua posterior transformação em álcool, gás carbônico e subprodutos, até o produto pronto, envasado em uma garrafa ou barril.

As primeiras receitas surgiram de um catadão de informações, e foram sendo aprimoradas e adaptadas de acordo com os instrumentos e equipamentos que tínhamos em mãos. Existe muita tentativa e erro. Os erros vão sendo descartados e os acertos aprimorados. Quando achamos que o produto atingiu o objetivo, damos a receita como formulada, e aí vem a parte mais difícil: repetir o resultado da forma mais parecida possível.

A macro indústria cervejeira possui equipamento de ponta, investe milhões em tecnologia, controle e automação. Possuem equipamentos caríssimos de controle de qualidade, além de laboratórios extremamente bem equipados. Tudo isso para entregar para o cliente final sempre o mesmo produto. Se esta tarefa fosse fácil, não haveria necessidade de tanto investimento.

Nós, assim como toda e qualquer microcervejaria que preza pela qualidade dos seus produtos, nos esforçamos bastante para repetir uma fórmula de sucesso. A questão é que nos importamos de fato em oferecer um produto de qualidade superior. Se ficar um pouco diferente do que esperávamos, ainda assim vai ser melhor do que as cervejas massificadas.

  1. Quando viram que a cervejaria poderia se destacar no mercado?

Para que uma cerveja ganhe destaque no mercado das artesanais ela precisa ser um bom produto, aliado a um bom marketing e apresentação. As prateleiras estão inundadas de marcas, e o cliente tem que escolher a sua, e não vai pagar pouco. Consequentemente se a bebida não suprir as expectativas, dificilmente ele voltará a comprar. Se ganhamos algum destaque foi por respeitar essas regras. Mas ainda existe muito a ser feito.

Cervejeiros se dedicam à qualidade dos produtos para se destacarem no mercado
Dedicação à qualidade dos produtos é a assinatura da Cathedral
  1. Agora vocês estão investindo em um novo nicho, um bar da Cathedral. Como será esse projeto, qual público desejam atingir?

O bar da cervejaria surgiu da necessidade da criação de um quartel general da marca em Maringá. Somos um produto local, produzido na cidade, e se tem um público que consideramos especial é o daqui. Queremos fornecer a experiência completa, da fabricação ao copo. Os clientes poderão degustar as cervejas no mesmo local em que elas são produzidas. Além disso, o bar da fábrica terá um caráter experimental. Será o local em que poderemos criar todo e qualquer tipo de receita de cerveja. Muitas delas só serão comercializadas dentro do nosso estabelecimento. Temos a intensão de criar um espaço único, em que o cliente sinta-se dentro da fábrica, e tenha a impressão de estar participando do processo de criação das cervejas.

  1. Fora o bar, quais são os planos de desenvolvimento/ crescimento da Cathedral?

Apostamos muito na qualidade de nossos produtos, e temos como meta fazer com que o maior número de pessoas saia da bolha das cervejas de consumo em massa e passem a conhecer as outras facetas deste líquido tão popular em nosso país. Temos muitos planos e ideias no que se diz respeito a ampliação da cervejaria, mas em momento nenhum daremos um passo maior do que nossas pernas. Deixemos o filme rodar, sempre com um bom copo de cerveja em mãos.

www.cervejariacathedral.com.br
www.fb.com/cervejariacathedral
*Fotos: arquivo pessoal.

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RODAPE-CLAUDINHA (1)

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